domingo, 19 de maio de 2013

Colossal Love




Foi a noite azul
que nos enfraqueceu, mas não desistimos.
Foi o homem que nos deixou
em constante espera afundando.
Foram os caminhos da luz
tão assustadores que nos fez ressurgir.
Foram duas vontades
que nos fez ir em frente – você segurando minha mão.

Um espelho nos contém carinhosamente agora.

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Diário da saudade, dia 6; algo sobre aeroplanos





Eram 6:30 da manhã quando acordou. Em dias comuns faria seu café, leria seu jornal em sua poltrona aconchegante; olharia algumas vezes pela janela para ver o dia clarear, numa esperança que todos os dissabores escorressem junto com escuridão finda de mais uma noite. Planejaria seu dia mentalmente, dividindo as tarefas entre coisas obrigatórias como: escovar os dentes, tomar banho, estudar, trabalhar, comer, dormir; e as importantes: sorrir, cumprimentar os transeuntes, dançar de meias, comprar suas flores prediletas, acenar para o sol, ver seus amigos, tomar sorvete de mouse de maracujá; e se o dia lhe reservasse tarefas indescritivelmente difíceis, se sentaria no banco da praça a observar os casais de velhinhos que caminham de mãos dadas, dando-lhe conforto e esperança que existe amor.
Exatamente as 6:30 acordou. Ao levantar da cama seus pés não alcançaram o chão. Algo diferente estava acontecendo com seu corpo. Tentou pular, dar cambalhotas, se jogar no piso frio, e nada; seus membros não a obedeciam. Desesperada quis correr, pedir ajuda, ver se alguém estaria na mesma situação que a dela. Flutuando...
Ao chegar à rua em frente a sua casa, seus vizinhos a olharam diferente, algo estranhados; não pelo fato dela desafiar a gravidade, ou por estar de pijamas mas, pela falta da sua costumeira gargalhada matutina, pela ausência do seu “bom dia” angelical que ela tanto fazia questão e, adorava ter como a parte mais feliz do seu dia; breves instantes que apagavam a amarga solidão que enfrentava todas as noites. Sentiu falta da alegria compartida (seja dito que ela não repartia felicidade, muito longe disso, ela a roubava das pessoas que sorriam de volta em retribuição à gentileza), uma versão cotidiana que ela adaptara para que a vida tivesse um toque adocicado. Ladra de sorrisos. Um pouco que egoísta, riu. Como de costume riram também. Os sorrisos planaram no ar, nenhum a atingiu dessa vez; algo estava errado naquele dia. Mas ela não sentiu necessidade de ir atrás deles, de colhê-los, colocá-los em sua cestinha, guardá-los para a noite solitária que enfrentaria horas depois. Os deixou voar, livres, levados pelo vento sem direção certa. Pensou que talvez eles alcançassem alguma outra pessoa com os dias tão duros quanto os dela, e assim, seriam guardados em prateleiras especiais, para logo mais serem usados em rostos tristes.
Sentiu-se desapegada. Naquele dia em particular havia realmente acordado. Acordou para a dádiva de estar viva, ao notar que uma energia percorria seu corpo. Acordou por perceber que ela se bastava, que seus fardos pesados e dias conturbados dependiam somente de um único sorriso: o seu. Acordou ao notar que aprendera viver no escuro, a conviver com o escuro. Então levitou. A princípio um tanto tímida, com alguns receios: de ser vista como louca pelas outras pessoas enraizadas ao chão, de ser considerada anormal ou um bicho estranho; medo da queda, que parecia ser dolorida e daria final a sua aventura. Mas tudo aquilo não a deteve. Soltou as últimas amarras e voou livre, tendo como o único companheiro o vento e, não se sentiu abatida por isso, ao invés, pode gargalhar novamente, fazer piruetas, poses engraçadas sem constrangimentos. Estava só e isso era sua recompensa por abrir os olhos, por aprender a ver e a enxergar a si mesma.
A apaixonada (agora por si) continuaria a sorrir todas as manhãs enquanto espalhava “bom dia” aos vizinhos, mas esses seriam sorrisos despretensiosos, leves, como beijos lançados ao ar, coloridos e brilhantes, enfeitando seu céu, aliás, onde era agora sua nova morada.

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Pelo Interfone





a.j.: _Tenho medo e vontade, tenho vontade e medo, todo meu desejo desvanecido na falta de coragem. Tocar o fogo pelo espelho ou deixar arder. Mas não, não vou deixar de viver aqui por medo sentir, posso subir?

l.c.: _ Sempre há queda após a subida. Quais as consequências de elevar os olhos e fitar o sol? Certamente seria belo, intenso e ofuscante, capaz de cegar-nos por infortúnio. Sei que desejo o fogo e o anelo com doce aflição, mas o que seria de nós depois de me ver perdida em teus braços, satisfazendo a carne ou talvez o coração?

a.j.: _ Ah si tu soubesse qual nirvana alcançaríamos se nos víssemos entrelaçados em meio a nosso calor, com desejo, palavras claras sussurradas com beijo doce e forte, elevando o momento feito único, gravado na memória, um quadro bem pintado criado em um segundo, lento. Traduzindo a perfeição, toque leve que marca, não terias duvidas entre pele e coração.

l.c.: _ Já se passaram meses desde que me sentei aqui, a escutar tua voz, para produzir esse disfarce da espera. O relógio sabe bem menos e diz que faz meia hora. A distância entre nós vai diminuindo. Uma luta travada pelo conflito, entre anseios de felicidade e o vazio do depois. Minhas escadas agora têm menos de uma légua; sei que nossa batalha é o começo de uma trégua.

a.j.: _ Sábio o tempo, que traz em meia hora ou em anos a aproximação entre quem sempre esteve tão perto mas nunca próximo ao ponto de se encostar. Esperar por esse momento é em vão, jamais se sabe a hora em que esses mundos vão se tocar. Mas ao momento devido não vá hesitar em deixar viver, o tempo há de esquecer enquanto em sua presença permanecer. Não espere mais sabendo que o tempo traz, mas também leva; não tem porque!

l.c.: _ Quando na poesia não couber mais o medo, que de tão vazio se enche; inaugural se fará tua 
presença ao meu mundo. Na pintura, eu desço, você sobe ou, em um lugar distante, sem distância entre nós, com um silêncio admirado. Da janela, brilho discreto entre as cortinas, e um beijo desajeitado.

(metade da emoção veio de longe e a outra, de dentro. salves ao poeta Anderson Juliani - a outra metade!)

sexta-feira, 19 de abril de 2013

Tarde ensolarada!



Abra a janela e deixe-o entrar, não se esquive, não se esconda em sombras ou em vales sombrios, sabendo que o escuro nada mais é do que sua ausência; sem sua colossal aparição todos os dias nada seriamos, então não se esconda dele, que traduz tudo oque somos, fazemos, sentimos. Deixe-o iluminar, dar vida: Sol!
(por Anderson Juliani)

 ...


Às vezes tímido, às vezes glorioso.
Às vezes te encara, desafiando quem manterá mais a mirada.
Às vezes te convida, outras te rejeita.
Certas horas te faz bem, em outras, queima como fogo.
Às vezes se eclipsa como um mero mortal.

Às vezes é desejado, às vezes repudiado.
O único senso comum entre todas às vezes, é que ele faz bem,
e sem ele nada floresceria: Sol!
(por Lilian Caroline)  

... 


Antíteses gostas de referir?! Referiu-se ao astro como maior mas se recusou a estar sob sua luz num domingo, frio, onde apenas ele aquece, vento frio, abraço quente. Ou recusar aplaudi-lo em seu pôr-do-sol em um lugar aberto, alto, onde a mirada voltada pra ele não se perde. olho no olho; queima como brasa, mas aquece igual a fogueira que a gerou gen, gênesis. Tudo dele vem, sem ele nada tem: Sol!
(por Anderson Juliani)

...


 
Trancada dentro do quarto, recusava todas as investidas brilhantes. O feixe de luz amarelo entrando através das cortinas lembrava-a de sua existência. Insistente, todos os dias a convidava para sorrir, para aquecer, para ver o horizonte, para ser livre e não temer o futuro. Ele não combinava com seu estado de espírito atual, por isso ela recusou o encontro. Ele a faria transbordar, e ela queria suspiros. Em revolta, ele desafiou sua rotina referindo mudança, esfriando seu corpo, se negando a esquentar sua cama; surgiu resoluto, mas se absteve do calor. Sua ausência sugeria chocolate quente, sugeria pele com pele; qualquer coisa que substituísse sua cálida carícia. E como retaliação, ela passou mais um dia sem abrir a janela para olhá-lo nos olhos: Sol!
(por Lilian Caroline)

quinta-feira, 21 de março de 2013

aconchego

hoje não preciso
de telefonemas
nem de palavras.
só um olhar
e um abraço
apertado
com teu coração
batendo bem
perto do meu!

maracujá


Uma das minhas lembranças de infância mais antigas é a de um pensamento filosófico. Recordo-me de reconhecer minha própria existência através de outras pessoas. Eu sou um ser humano, eu existo - porque meu pai, minha mãe e a tia da escola também existem e me vêem como um semelhante ou algo que o valha. Desde então, muita coisa mudou. Quase tudo mudou, na verdade. Mas continuo a me enxergar a partir da observação do outro. Nada faz sentido para mim se não for através dessa percepção, desse sentimento de conexão imutável entre o meu ser e os demais. E você minha Mileto, me transformou em quem sou hoje. Que permitiu que eu me enxergasse em seu reflexo. Que me mostrou o que é sentir. O que é amar.


...


Foi na quarta série que encontrei nega-fer. Passei horas tentando descobrir de onde a conhecia. Uma semana depois, enquanto examinava seus óculos e o jeitinho "nerd" de ser, pensei comigo que só podia ser de outra vida.
Muito tempo se passou desde então. Agora ambas somos adultas. E ela, um prodígio. Nesse exato momento cumpre 25 anos; e eu estou numa cidade distante, mas ambas, aprendendo sobre a vida, sobre os outros, sobre si.
Muito tempo há de se passar distantes ainda. É certo, contudo, que de certa forma ela estará sempre por aqui, e eu lá.