Eram 6:30
da manhã quando acordou. Em dias comuns faria seu café, leria seu jornal em sua
poltrona aconchegante; olharia algumas vezes pela janela para ver o dia clarear,
numa esperança que todos os dissabores escorressem junto com escuridão finda de
mais uma noite. Planejaria seu dia mentalmente, dividindo as tarefas entre
coisas obrigatórias como: escovar os dentes, tomar banho, estudar, trabalhar,
comer, dormir; e as importantes: sorrir, cumprimentar os transeuntes, dançar de
meias, comprar suas flores prediletas, acenar para o sol, ver seus amigos,
tomar sorvete de mouse de maracujá; e se o dia lhe reservasse tarefas
indescritivelmente difíceis, se sentaria no banco da praça a observar os casais
de velhinhos que caminham de mãos dadas, dando-lhe conforto e esperança que
existe amor.
Exatamente
as 6:30 acordou. Ao levantar da cama seus pés não alcançaram o chão. Algo
diferente estava acontecendo com seu corpo. Tentou pular, dar cambalhotas, se
jogar no piso frio, e nada; seus membros não a obedeciam. Desesperada
quis correr, pedir ajuda, ver se alguém estaria na mesma situação que a dela.
Flutuando...
Ao chegar à
rua em frente a sua casa, seus vizinhos a olharam diferente, algo estranhados; não
pelo fato dela desafiar a gravidade, ou por estar de pijamas mas, pela falta da
sua costumeira gargalhada matutina, pela ausência do seu “bom dia” angelical que ela tanto fazia
questão e, adorava ter como a parte mais feliz do seu dia; breves instantes que
apagavam a amarga solidão que enfrentava todas as noites. Sentiu falta da
alegria compartida (seja dito que ela não repartia felicidade, muito longe
disso, ela a roubava das pessoas que sorriam de volta em retribuição à gentileza),
uma versão cotidiana que ela adaptara para que a vida tivesse um toque adocicado.
Ladra de sorrisos. Um pouco que egoísta, riu. Como de costume riram também. Os
sorrisos planaram no ar, nenhum a atingiu dessa vez; algo estava errado naquele
dia. Mas ela não sentiu necessidade de ir atrás deles, de colhê-los, colocá-los
em sua cestinha, guardá-los para a noite solitária que enfrentaria horas
depois. Os deixou voar, livres, levados pelo vento sem direção certa. Pensou
que talvez eles alcançassem alguma outra pessoa com os dias tão duros quanto os
dela, e assim, seriam guardados em prateleiras especiais, para logo mais serem
usados em rostos tristes.
Sentiu-se
desapegada. Naquele dia em particular havia realmente acordado. Acordou para a
dádiva de estar viva, ao notar que uma energia percorria seu corpo. Acordou por
perceber que ela se bastava, que seus fardos pesados e dias conturbados
dependiam somente de um único sorriso: o seu. Acordou ao notar que
aprendera viver no escuro, a conviver com o escuro. Então levitou. A princípio
um tanto tímida, com alguns receios: de ser vista como louca pelas outras
pessoas enraizadas ao chão, de ser considerada anormal ou um bicho estranho; medo da queda, que parecia ser dolorida e daria final a sua aventura. Mas tudo
aquilo não a deteve. Soltou as últimas amarras e voou
livre, tendo como o único companheiro o vento e, não se sentiu abatida por isso, ao invés, pode gargalhar novamente, fazer piruetas, poses engraçadas sem constrangimentos.
Estava só e isso era sua recompensa por abrir os olhos, por aprender a ver e a
enxergar a si mesma.
A apaixonada (agora por si) continuaria a
sorrir todas as manhãs enquanto espalhava “bom dia” aos vizinhos, mas esses seriam
sorrisos despretensiosos, leves, como beijos lançados ao ar, coloridos e
brilhantes, enfeitando seu céu, aliás, onde era agora sua nova morada.

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